Uma investigação sobre as evidências científicas do declínio de indicadores reprodutivos masculinos, a relação entre testosterona e câncer, os custos do tratamento oncológico e a influência econômica sobre a saúde pública.

A saúde masculina envolve muito mais do que força física, libido ou capacidade reprodutiva. Ela depende de uma complexa interação entre sistema endócrino, metabolismo, saúde cardiovascular, ambiente, comportamento, relações sociais e condições de vida.
Nas últimas décadas, pesquisadores têm investigado tendências preocupantes em alguns indicadores da saúde reprodutiva masculina, incluindo a concentração de espermatozoides, os níveis circulantes de testosterona e determinados marcadores do desenvolvimento genital. Paralelamente, estudos investigam como a posição social pode estar associada à regulação hormonal e como níveis baixos de testosterona se relacionam com diferentes desfechos de saúde, inclusive a progressão de determinados tipos de câncer.
Essas questões despertam uma pergunta importante: estamos diante de mudanças relevantes na saúde masculina, e até que ponto compreendemos suas causas?
Há ainda outra dimensão que precisa ser considerada. A assistência médica movimenta recursos expressivos, especialmente em áreas como oncologia, medicamentos de alto custo e tecnologias diagnósticas. Empresas farmacêuticas, investidores institucionais e governos participam de um sistema no qual coexistem interesses comerciais legítimos, necessidades de saúde pública e conflitos de interesse que merecem transparência.
Este artigo reúne estudos epidemiológicos, revisões sistemáticas, meta-análises, dados econômicos e relatórios empresariais para examinar essas questões de maneira crítica.
A proposta não é afirmar a existência de uma conspiração nem atribuir uma causa única a problemas complexos. É analisar o que as evidências permitem concluir, o que permanece incerto e por que a prevenção, a pesquisa independente e a transparência econômica devem ocupar um lugar central no debate sobre saúde.
A testosterona é um hormônio esteroide que participa do desenvolvimento sexual masculino, da manutenção da massa muscular e óssea, da produção de espermatozoides, da libido e de outros processos fisiológicos. Seus efeitos dependem da concentração hormonal, da sensibilidade dos tecidos, da idade, do estado de saúde e de outros fatores.
Entretanto, a testosterona não deve ser compreendida apenas como uma característica biológica fixa. Pesquisas investigam como experiências sociais, competição e posição em grupos podem estar associadas a mudanças hormonais.
Pesquisas clássicas com primatas examinaram as relações entre hierarquia social, comportamento e atividade hormonal. Esses trabalhos ajudaram a desenvolver a hipótese de que o sistema endócrino participa da adaptação dos indivíduos às condições sociais em que vivem.
Uma referência histórica é o artigo disponível no ScienceDirect, publicado em 1980, que investiga a relação entre posição social e testosterona em primatas.
Esses estudos são relevantes para a compreensão da biologia do comportamento, mas exigem cautela: resultados observados em primatas não podem ser automaticamente generalizados para seres humanos. A hierarquia social também pode se relacionar com estresse, acesso a recursos, oportunidades reprodutivas e características individuais.
Um estudo publicado em 2018 no Journal of Personality and Social Psychology investigou a associação entre prestígio social e mudanças longitudinais de testosterona em seres humanos.
Os pesquisadores acompanharam a formação de uma comunidade e avaliaram a posição de prestígio dos participantes. Nesse contexto, prestígio correspondia ao reconhecimento social relacionado a talento, competência e capacidade de oferecer conselhos, e não simplesmente à imposição de poder pela força ou pelo medo.
Os resultados mostraram que:
Os autores interpretaram os resultados como compatíveis com a hipótese de que experiências anteriores de prestígio podem contribuir para regular a testosterona e influenciar esforços posteriores para conquistar ou manter reconhecimento social.
Fonte: Cheng, Kornienko e Granger (2018). Consultar o estudo no PubMed.
É importante não extrapolar esses resultados. O estudo não demonstra que toda liderança eleva a testosterona, que o prestígio sempre produz esse efeito ou que o hormônio determina o valor de uma pessoa. Também não comprova que a testosterona aumentará permanentemente quando alguém conquistar uma posição social elevada.
O que ele oferece é uma evidência interessante de que a biologia humana pode responder ao contexto social. Competência, reconhecimento, experiências de sucesso e relações sociais podem fazer parte de um conjunto de fatores associados à regulação hormonal.
A possibilidade de que os níveis de testosterona estejam diminuindo entre homens de diferentes gerações tem sido investigada em vários países.
Esses estudos não são todos equivalentes. Alguns analisam populações clínicas, outros utilizam bancos de exames laboratoriais, e outros reúnem pesquisas publicadas ao longo de décadas. As diferenças de amostragem, métodos laboratoriais, idade, composição corporal e condições de saúde afetam a interpretação dos resultados.
Ainda assim, há pesquisas que identificaram tendências temporais de redução hormonal que não parecem ser explicadas exclusivamente pelo envelhecimento individual.
Um estudo publicado em 2020 analisou 2.874 medições de testosterona e albumina realizadas entre 2010 e 2017 em um programa de saúde masculina.
Os pesquisadores encontraram uma redução média estimada de aproximadamente 10,68 ng/dL por ano, equivalente a cerca de 1,6% ao ano segundo a análise apresentada pelos autores.
O resultado foi descrito como uma tendência independente da idade.
Entretanto, há uma limitação essencial: as medições vieram de um programa específico de saúde masculina e não de uma amostra aleatória representativa de todos os homens brasileiros. Além disso, o número de medições não deve ser confundido com o número de indivíduos únicos.
O estudo é um sinal epidemiológico relevante, mas não permite afirmar que todos os homens brasileiros estejam experimentando a mesma redução.
Fonte: Laranja et al. (2020). PubMed.
Outro estudo, publicado em 2020, investigou tendências de testosterona em mais de 102 mil homens avaliados entre 2006 e 2019.
Os pesquisadores identificaram reduções significativas em diferentes grupos analisados, mesmo após considerar a idade.
A dimensão da amostra fortalece a relevância estatística do resultado. Contudo, uma amostra grande não elimina automaticamente vieses de seleção, mudanças nos métodos de medição ou diferenças entre pessoas que realizaram exames em diferentes períodos.
Um estudo publicado em 2007 avaliou homens de 45 a 79 anos, utilizando dados coletados em diferentes períodos entre 1987 e 2004.
Os resultados indicaram uma redução de testosterona que não foi explicada exclusivamente pelo envelhecimento dos participantes.
Esse achado contribuiu para ampliar o debate sobre mudanças populacionais na saúde hormonal masculina e estimulou pesquisas sobre fatores metabólicos, ambientais e comportamentais.
Uma pesquisa publicada em 2007 analisou 5.350 amostras de homens avaliados entre 1982 e 2001.
Os autores encontraram tendências de redução da testosterona total. Entretanto, os resultados para testosterona livre não permaneceram estatisticamente significativos após determinadas análises.
O aumento do índice de massa corporal (IMC) explicou parte das diferenças observadas.
Esse resultado é importante porque demonstra que as tendências hormonais podem ser influenciadas por mudanças na composição corporal da população. Obesidade, alterações metabólicas e variações na globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) podem modificar a interpretação dos níveis hormonais.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Endocrinological Investigation em 2025 avaliou tendências temporais de testosterona e hormônio luteinizante (LH) em homens saudáveis.
O trabalho reuniu estudos publicados entre 1971 e julho de 2024, abrangendo mais de um milhão de participantes segundo o conjunto de dados descrito pelos autores.
A revisão encontrou tendências de redução da testosterona e do LH ao longo do tempo. Os autores discutiram a possibilidade de mudanças no funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Entretanto, os resultados variaram conforme os métodos laboratoriais e as características dos estudos. A revisão não estabeleceu uma causa definitiva para as tendências observadas.
Fonte: Santi et al. (2025). Texto integral no PubMed Central.
O conjunto das evidências sustenta a necessidade de investigar mudanças temporais nos níveis hormonais masculinos. Entretanto, não justifica afirmar que exista uma redução uniforme em todos os países, em todos os homens ou em todas as faixas etárias.
Também não permite atribuir o fenômeno exclusivamente a substâncias químicas, alimentação industrializada, sedentarismo ou qualquer outro fator isolado.
O aumento da obesidade, as alterações metabólicas, o sono inadequado, algumas doenças, o uso de determinados medicamentos, a exposição ambiental e as diferenças metodológicas são hipóteses e fatores que precisam ser avaliados de acordo com cada estudo.
A questão científica central permanece: quais fatores explicam essas tendências, qual é sua magnitude real nas diferentes populações e quais intervenções podem preveni-las?
A saúde reprodutiva masculina não depende apenas da testosterona. A produção, a concentração, a motilidade e a morfologia dos espermatozoides são parâmetros importantes, embora nenhum deles, isoladamente, determine a fertilidade de uma pessoa.
Uma das pesquisas mais discutidas nessa área é a meta-análise publicada em 2023 por Levine e colaboradores.
Os pesquisadores reuniram 223 estudos, com 288 estimativas baseadas em amostras de sêmen coletadas entre 1973 e 2018.
A análise estimou, entre homens não selecionados segundo a fertilidade, uma redução média de 51,6% na concentração de espermatozoides entre 1973 e 2018. A contagem total também apresentou uma redução estimada de 62,3% no modelo ajustado.
Os autores identificaram tendências de redução em diferentes regiões, incluindo América do Sul, América Central, Ásia e África, embora a quantidade de dados e a precisão das estimativas variassem entre regiões e grupos.
Fonte: Levine et al. (2023). Meta-análise no PubMed.
O gráfico representa a variação percentual estimada na meta-análise, tomando 1973 como referência. Não representa uma medição direta de todos os homens do planeta.
Concentração de espermatozoides
Índice relativo (1973 = 100)
1973 | ████████████████████ 100
2018 | ██████████ 48,4
Fonte: Levine et al. (2023). O valor de 48,4 é calculado a partir da redução estimada de 51,6%.
Não necessariamente.
Concentração de espermatozoides e infertilidade não são conceitos equivalentes. A fertilidade também depende de motilidade, morfologia, função reprodutiva, fatores femininos, frequência e momento das relações sexuais e outras condições clínicas.
Além disso, uma tendência média observada em estudos populacionais não permite prever a fertilidade de um indivíduo.
Ainda assim, uma redução dessa magnitude, se refletir uma tendência populacional real, é relevante para a saúde pública e justifica investigação das possíveis causas.
Uma meta-análise anterior, publicada em 1997, avaliou 61 estudos e encontrou declínio significativo da contagem de espermatozoides apenas nos estudos norte-americanos analisados.
Essa pesquisa é importante para compreender a evolução do debate. Os resultados anteriores foram limitados pela distribuição geográfica dos estudos, pelas diferenças metodológicas e pela dificuldade de comparar amostras coletadas em décadas distintas.
A pesquisa de 2023 ampliou a base de dados e a cobertura geográfica, mas não elimina todas as incertezas históricas.
Fonte: Meta-análise de 1997 — PubMed.
Entre os fatores investigados pela literatura estão:
Uma revisão crítica publicada em 2016 discutiu as alterações reprodutivas masculinas, incluindo qualidade seminal, desenvolvimento genital e possíveis influências ambientais e genéticas.
A existência dessas hipóteses não significa que todas tenham a mesma força de evidência. Identificar uma tendência populacional é diferente de demonstrar quais exposições a causaram.
Alterações como hipospádia e criptorquidia são condições congênitas relacionadas ao desenvolvimento genital masculino.
A hipospádia ocorre quando a abertura da uretra se localiza em uma posição diferente da habitual na extremidade do pênis. A criptorquidia corresponde à ausência de descida de um ou ambos os testículos para o escroto.
Outro indicador investigado em pesquisas sobre desenvolvimento reprodutivo é a distância anogenital, que pode estar associada à exposição hormonal durante determinadas fases do desenvolvimento.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2018 investigou relações entre distância anogenital e alterações congênitas do desenvolvimento genital masculino.
É fundamental esclarecer que esse trabalho não demonstra, por si só, que hipospádia, criptorquidia ou alterações do tamanho peniano estejam aumentando globalmente ao longo das décadas.
Para sustentar uma afirmação dessa natureza, seriam necessários estudos populacionais comparáveis, com critérios diagnósticos consistentes, amostragem adequada e controle de diferenças entre regiões e períodos.
Portanto, esse tema deve ser tratado como uma área de investigação científica, e não como uma tendência global já comprovada em todos os seus aspectos.
A relação entre testosterona e câncer de próstata é frequentemente apresentada de maneira simplificada. Em algumas discussões, presume-se que níveis mais altos de testosterona necessariamente aumentariam o risco de câncer. Em outras, afirma-se que níveis baixos seriam sempre protetores.
A literatura científica não sustenta nenhuma dessas simplificações.
É necessário distinguir pelo menos três perguntas:
Qual é a relação entre testosterona e a probabilidade de desenvolver câncer de próstata?
Qual é a relação entre testosterona e a agressividade ou progressão de um câncer já existente?
Qual é a relação entre testosterona e mortalidade por câncer?
Esses desfechos são diferentes e podem apresentar associações distintas.
Um estudo publicado em 2026 no The Journal of Urology, envolvendo 924 homens com câncer de próstata localizado acompanhados em vigilância ativa, avaliou a relação entre testosterona basal e progressão histológica.
A vigilância ativa é uma estratégia de acompanhamento de determinados cânceres de próstata localizados, sem tratamento imediato, com monitoramento clínico e exames periódicos.
Os pesquisadores observaram que homens com testosterona igual ou inferior a 300 ng/dL apresentaram maior risco de progressão para o grupo de grau 3 ou superior:
Isso corresponde a uma associação com risco instantâneo relativo estimado 61% maior para esse desfecho, durante o acompanhamento.
Não foi encontrada uma associação estatisticamente clara com a progressão para o grupo de grau 2.
Fonte: Lawen et al. (2026). Estudo no PubMed.
O estudo é relevante, mas possui limitações. Trata-se de uma coorte retrospectiva, e os autores destacam a necessidade de validação prospectiva. O resultado não demonstra que a testosterona baixa cause a progressão nem que elevar a testosterona impeça a evolução do câncer.
Uma análise colaborativa publicada em 2018 reuniu dados de 20 estudos prospectivos, com 6.933 casos de câncer de próstata e 12.088 controles.
Os homens no décimo mais baixo da distribuição de testosterona livre apresentaram menor risco relativo de câncer de próstata em geral, com OR de 0,77.
Isso equivale a 23% menos chances relativas no grupo analisado, em comparação com o grupo de referência utilizado pelos pesquisadores.
Esse resultado não contradiz automaticamente o estudo de 2026. Um trabalho investiga a ocorrência de câncer em populações inicialmente avaliadas quanto a esse desfecho; o outro examina a progressão de tumores já diagnosticados em homens sob vigilância ativa.
O risco de desenvolver uma doença e o risco de progressão de uma doença existente são perguntas diferentes.
Outra análise, publicada em 2026 no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, investigou associações entre concentrações de hormônios sexuais e mortalidade por câncer.
Segundo os resultados apresentados, foram reunidos dados individuais de 24.510 homens em dez estudos, com 2.847 mortes por câncer. Para analisar a incidência de câncer de próstata, foram utilizados cinco estudos, com 12.280 homens e 918 casos.
Os homens no quintil mais baixo de testosterona apresentaram risco instantâneo relativo de morte por câncer 18% maior do que aqueles no quintil mais alto:
O estudo também relatou uma associação entre testosterona muito baixa e maior risco de desenvolver câncer em geral, com a associação se intensificando abaixo de 7,3 nmol/L.
É importante não interpretar esses resultados como prova de que a testosterona baixa causa câncer ou de que a reposição hormonal previne a doença. Associações observacionais podem refletir fatores metabólicos, doenças preexistentes, condições gerais de saúde ou outras variáveis.
Além disso, mortalidade por câncer em geral não equivale a incidência de câncer de próstata.
Em conjunto, os trabalhos reforçam a necessidade de compreender melhor a relação entre hormônios, saúde metabólica, ocorrência de câncer, progressão tumoral e mortalidade.
Eles não justificam recomendar testosterona indiscriminadamente, suspender tratamentos oncológicos ou concluir que a reposição hormonal seja uma estratégia de prevenção do câncer.
A interpretação adequada exige avaliação clínica, confirmação laboratorial quando indicada, análise dos sintomas e consideração dos riscos e benefícios individuais.
A mensagem mais importante é que a saúde hormonal masculina merece investigação séria, sem mitos e sem simplificações comerciais.
A oncologia é uma área de grande complexidade clínica e econômica. O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, exames, internações e acompanhamento prolongado.
Os custos variam consideravelmente conforme o tipo de câncer, o estágio, as características moleculares do tumor, os protocolos terapêuticos e os medicamentos utilizados.
Um estudo do Observatório de Oncologia, publicado em 2024 e baseado em dados financeiros de 2023, estimou os custos do tratamento de primeira linha de diferentes subtipos de câncer de mama no Sistema Único de Saúde.
Para o subtipo HER2-positivo com receptores hormonais negativos, o estudo apresentou os seguintes valores estimados:
EstágioCusto estimadoIR$ 125.321,27IIR$ 157.325,51IIIR$ 165.580,55IVR$ 237.569,19
Valores aproximados em milhares de reais
Estágio I R$ 125,3 mil | █████████████
Estágio II R$ 157,3 mil | ████████████████
Estágio III R$ 165,6 mil | █████████████████
Estágio IV R$ 237,6 mil | ████████████████████████
Representação proporcional aproximada dos valores publicados pelo Observatório de Oncologia.
Os valores ilustram como o custo estimado pode aumentar com o avanço da doença nesse perfil específico de câncer de mama.
Esses números não representam o custo médio de todos os cânceres nem permitem afirmar que cada paciente oncológico custe meio milhão de reais ao SUS. Também não representam necessariamente todas as despesas do percurso assistencial, como custos indiretos, perdas de produtividade, cuidados informais ou tratamentos posteriores.
O estudo considerou procedimentos e preços de medicamentos segundo critérios próprios, utilizando bases como o SIGTAP e informações de preços da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos.
Outro levantamento do Observatório de Oncologia, publicado em 2024, analisou despesas e procedimentos relacionados ao câncer entre 2019 e 2022.
O estudo estimou que os gastos diretos com tratamento oncológico no SUS chegaram a aproximadamente R$ 3,9 bilhões em 2022, considerando os procedimentos abrangidos pela metodologia. Cerca de 77% estavam relacionados ao tratamento ambulatorial, como quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia, enquanto os procedimentos hospitalares correspondiam a aproximadamente 23%.
Esses números são estimativas baseadas em dados administrativos e não devem ser confundidos com o gasto total do país em todas as dimensões da oncologia.
O relatório também ressalta limitações dos dados secundários, que podem apresentar lacunas e diferenças entre valores registrados e a realidade dos serviços.
Quando uma doença pode ser prevenida ou detectada em uma fase inicial, existe a possibilidade de reduzir complicações, tratamentos mais complexos e perdas de qualidade de vida.
Isso não significa que todos os cânceres possam ser prevenidos nem que o diagnóstico precoce garanta cura. Tampouco significa que o tratamento de uma doença avançada seja desnecessário ou que seus custos representem desperdício.
A questão de saúde pública é outra: quanto do sofrimento e da despesa poderia ser evitado por meio de medidas de prevenção eficazes, acesso adequado aos serviços e diagnóstico oportuno?
Responder a essa pergunta exige estudos específicos para cada doença, considerando a efetividade das intervenções, os custos, os riscos e os resultados clínicos.
O desenvolvimento de medicamentos contra o câncer envolve pesquisa científica, ensaios clínicos, produção industrial, regulação sanitária, patentes, distribuição e acompanhamento dos pacientes.
Esse setor pode produzir benefícios extraordinários. Medicamentos oncológicos modernos aumentaram as opções terapêuticas para diversas doenças e, em determinadas situações, ampliaram a sobrevida ou melhoraram a qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, a oncologia movimenta receitas expressivas. A análise desse mercado é importante para compreender a dimensão econômica das decisões relacionadas a preços, acesso, financiamento público e pesquisa.
Uma estimativa de mercado citada no levantamento que motivou este artigo aponta um volume global de aproximadamente US$ 291 bilhões em 2025. Esse número deve ser tratado como estimativa de mercado, e não como faturamento de uma única empresa ou como lucro líquido do setor. Sua utilização definitiva exige a identificação da fonte, do escopo do mercado e da metodologia de cálculo.
Os números a seguir referem-se ao faturamento total das empresas ou às receitas de segmentos e medicamentos específicos, conforme indicado. Não são diretamente comparáveis entre si sem considerar moedas, critérios contábeis e diferenças na classificação dos produtos.
EmpresaFaturamento total informado para 2025Receita oncológica ou exemploMerck & Co. (MSD)US$ 65 bilhõesKeytruda: US$ 31,641 bilhõesRocheCHF 61,5 bilhõesOncologia e hematologia: aproximadamente CHF 23,9 bilhõesAstraZenecaUS$ 58,7 bilhõesOncologia: aproximadamente US$ 23,7 bilhõesJohnson & JohnsonUS$ 94,2 bilhõesMedicamentos oncológicos: aproximadamente US$ 25,4 bilhõesNovartisUS$ 54,5 bilhõesPortfólio de medicamentos oncológicosPfizerUS$ 62,6 bilhõesPortfólio que inclui Ibrance e PadcevAdiumNão apresentado aqui em valor consolidado comparávelAtuação farmacêutica na América Latina, incluindo oncologia
Valores informados no levantamento de origem; os números devem ser conferidos nos relatórios anuais oficiais e não devem ser tratados como lucros. A tabela não constitui um ranking de empresas exclusivamente oncológicas.
A Merck & Co., por exemplo, informou receita de US$ 31,641 bilhões com o Keytruda em 2025, segundo seu relatório anual. Esse valor, isoladamente, corresponde à receita de um produto, e não ao lucro líquido obtido com ele.
Eles demonstram que a oncologia é um mercado de grande relevância econômica para diversas empresas farmacêuticas.
Entretanto, faturamento não é lucro. Uma companhia pode ter receitas elevadas e também apresentar custos expressivos com pesquisa, ensaios clínicos, fabricação, distribuição, pessoal, impostos e outras operações.
Da mesma forma, o fato de uma empresa obter receitas com tratamentos oncológicos não demonstra que ela tenha interesse em impedir a prevenção ou a cura do câncer.
Para sustentar uma acusação desse tipo, seria necessário apresentar evidências específicas de condutas, decisões ou políticas destinadas a produzir esse resultado.
A questão legítima é investigar como os incentivos econômicos, os preços, as patentes, as prioridades de pesquisa e as decisões de financiamento influenciam o acesso a tratamentos e a distribuição dos recursos científicos.
A Adium é incluída por sua atuação regional na América Latina. Como não foi apresentado um valor consolidado comparável de faturamento oncológico para 2025, não seria correto colocá-la na mesma escala financeira das demais empresas.
Além das empresas que desenvolvem medicamentos, existe outra dimensão econômica: a estrutura acionária das grandes companhias.
Gestoras de ativos como BlackRock, Vanguard e State Street administram investimentos em nome de clientes e fundos. Por meio de fundos de índice, fundos de investimento e outras estruturas, podem deter participações acionárias em numerosas empresas de diferentes setores.
Essas participações não significam, necessariamente, que as gestoras sejam proprietárias exclusivas das empresas ou que controlem todas as suas decisões. É necessário distinguir a gestão de recursos de terceiros, a titularidade formal das ações, os direitos de voto e a influência efetivamente exercida sobre a administração corporativa.
Segundo os dados fornecidos para esta investigação, um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista Globalization and Health analisou 40 grandes empresas de dez setores com potencial de causar danos à saúde ou ao meio ambiente.
O resumo dos resultados apresentado no levantamento indica que:
Esses resultados, se confirmados na publicação original e em seus dados suplementares, são relevantes para discutir governança corporativa, transparência e responsabilidade dos investidores.
Entretanto, é necessário interpretar corretamente o alcance da pesquisa. Participações acionárias em empresas de setores controversos não demonstram, por si só, que uma gestora tenha causado danos à saúde, coordenado ações para impedir políticas públicas ou interferido diretamente na pesquisa médica.
Para compreender a influência efetiva desses investidores, é preciso examinar quais propostas foram votadas, como cada gestora votou, quais eram as regras de governança e quais decisões empresariais foram influenciadas.
Referência a conferir: publicação de fevereiro de 2026 na revista Globalization and Health, conforme descrita no material que motivou este artigo. A referência bibliográfica completa e o link direto do artigo devem ser acrescentados após confirmação do título, dos autores e do DOI. Não é adequado inventar esses dados.
A existência de um mercado farmacêutico bilionário e de grandes investidores não constitui, isoladamente, evidência de manipulação científica. Porém, esses fatos justificam perguntas legítimas sobre incentivos econômicos e transparência.
Algumas delas são:
Quem financia as pesquisas? A origem dos recursos pode influenciar quais perguntas recebem prioridade, quais tratamentos são comparados e quais resultados são mais relevantes para os patrocinadores.
Como os conflitos de interesse são declarados? Relações financeiras entre pesquisadores, instituições, fabricantes e financiadores devem ser transparentes e avaliadas de acordo com seu potencial de influência.
Quais resultados são publicados? A publicação seletiva de resultados favoráveis pode distorcer a percepção da eficácia e da segurança de intervenções.
Como os preços são definidos? Os custos de desenvolvimento, os riscos assumidos, a proteção patentária, a concorrência, as negociações públicas e as estratégias comerciais participam da formação dos preços.
Quais áreas recebem mais investimento? A distribuição de recursos entre tratamentos, prevenção, diagnóstico, doenças raras e problemas de saúde prevalentes merece análise crítica.
Essas perguntas não pressupõem que todos os pesquisadores ou todas as empresas atuem de forma inadequada. Elas representam parte essencial de uma discussão séria sobre integridade científica e políticas de saúde.
Também é importante lembrar que os conflitos de interesse podem existir em diferentes setores, incluindo indústrias farmacêuticas, alimentos, tabaco, bebidas alcoólicas, produtos químicos e outras atividades com possíveis efeitos sobre a saúde pública.
O caminho responsável é examinar documentos, dados, votações, contratos, resultados de pesquisas e decisões concretas, em vez de atribuir intenções sem evidência.
O câncer de próstata é uma doença relevante para a saúde masculina, mas seu rastreamento e diagnóstico exigem decisões individualizadas.
O exame digital retal é um dos procedimentos que podem integrar a avaliação clínica da próstata. Ele não é, entretanto, o único recurso disponível, nem substitui a avaliação dos sintomas, a história clínica, a discussão sobre o antígeno prostático específico (PSA) ou outros exames quando indicados.
A decisão sobre rastreamento deve considerar idade, histórico familiar, fatores de risco, possíveis benefícios, limitações e riscos de resultados falso-positivos, biópsias e sobrediagnóstico.
Portanto, é inadequado transformar a discussão sobre a saúde masculina em uma disputa entre um exame específico e a investigação hormonal, metabólica ou preventiva.
O cuidado adequado inclui prevenção baseada em evidências, acesso a serviços de saúde, diagnóstico oportuno, avaliação clínica e informação transparente.
Questionar se as políticas de saúde masculina são suficientes é legítimo. Desqualificar procedimentos médicos sem considerar suas indicações e limitações não contribui para esse objetivo.
Diante das evidências discutidas, algumas prioridades merecem atenção.
É necessário acompanhar tendências de testosterona, fertilidade e outros indicadores reprodutivos por meio de estudos representativos, com métodos laboratoriais padronizados e controle de fatores de confusão.
As possíveis contribuições de obesidade, doenças metabólicas, sono, medicamentos, fatores ambientais e exposições ocupacionais devem ser investigadas com desenhos de pesquisa capazes de distinguir associação de causalidade.
A saúde masculina não deve ser discutida apenas quando surgem infertilidade, disfunção sexual, doença cardiovascular ou câncer. O acesso à atenção primária, à avaliação clínica e às intervenções preventivas apropriadas é fundamental.
Financiamento, protocolos, conflitos de interesse, resultados negativos e limitações metodológicas precisam ser divulgados de maneira clara.
Os recursos públicos são limitados. Investimentos em prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação devem ser avaliados com base em evidências de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto sobre a qualidade de vida.
A testosterona é importante, mas não é um indicador isolado de saúde geral, masculinidade ou valor pessoal. A reposição hormonal tem indicações clínicas específicas e requer acompanhamento profissional. Não deve ser utilizada indiscriminadamente para prevenir câncer, melhorar a fertilidade ou corrigir sintomas sem investigação adequada.
As pesquisas reunidas neste artigo mostram que existem questões legítimas e importantes sobre a saúde masculina.
Há estudos que identificam tendências temporais de redução da testosterona em determinadas populações. Uma meta-análise abrangente encontrou redução estimada da concentração de espermatozoides entre 1973 e 2018. Pesquisas também investigam a relação entre posição social e mudanças hormonais, além das associações entre testosterona, progressão tumoral e mortalidade por câncer.
Ao mesmo tempo, esses resultados possuem limitações e não devem ser convertidos em afirmações absolutas. As causas das tendências observadas permanecem incompletamente esclarecidas, e os estudos sobre testosterona e câncer não demonstram que a reposição hormonal previna ou trate a doença.
No campo econômico, os custos estimados de tratamentos oncológicos e as receitas expressivas de grandes empresas demonstram a dimensão financeira da assistência médica. A estrutura acionária de grandes gestoras também merece atenção quando se discute governança corporativa e responsabilidade dos investidores.
Mas é necessário separar os fatos comprovados das hipóteses: faturamento elevado não prova intenção de manter pessoas doentes; participação acionária não comprova controle absoluto; associação estatística não demonstra causalidade; e uma tendência epidemiológica não identifica automaticamente sua origem.
A crítica mais consistente não é presumir que exista uma única força responsável por todos os problemas de saúde. É exigir dados melhores, transparência, pesquisa independente, prevenção eficaz, acesso a tratamentos e políticas públicas avaliadas por seus resultados.
A saúde humana não deve ser tratada apenas como mercado consumidor. Seu objetivo fundamental é preservar a vida, reduzir o sofrimento e permitir que as pessoas vivam com autonomia, dignidade e qualidade de vida.
É por isso que investigar a saúde masculina, compreender as evidências e questionar os incentivos econômicos que influenciam o sistema de saúde não são atividades incompatíveis. São partes de um mesmo compromisso com uma ciência mais rigorosa e uma sociedade mais saudável.
Esta pesquisa foi elaborada por mim, Élisson Kario, estudante de Nutrição do 6º período, com base em artigos científicos, revisões sistemáticas, meta-análises, publicações indexadas em bases acadêmicas e documentos institucionais e empresariais indicados nas referências abaixo.
O trabalho segue princípios de investigação científica e divulgação responsável: identificação das fontes, distinção entre associação e causalidade, consideração das limitações metodológicas e reconhecimento das incertezas existentes. Trata-se de uma pesquisa independente de caráter informativo, e não de uma revisão sistemática registrada, de um estudo clínico original ou de uma orientação médica individual.
As informações econômicas devem ser interpretadas conforme o período, a moeda, o escopo e a metodologia de cada fonte. As referências não significam que todos os resultados tenham a mesma força de evidência ou que as hipóteses discutidas estejam definitivamente comprovadas.
Estudo clássico sobre posição social e testosterona em primatas (1980). ScienceDirect. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0018506X80900331.
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LARANJA, Walker W. et al. Age-independent secular testosterone populational trends among Brazilian males. International Urology and Nephrology, 2020. DOI: 10.1007/s11255-020-02425-x. Disponível em: PubMed.
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Estudo dinamarquês sobre testosterona total, testosterona livre, SHBG e IMC, com amostras de 1982 a 2001. 2007. Disponível em: PubMed.
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Nota bibliográfica: a referência completa deste estudo precisa ser confirmada na publicação original. O material utilizado na elaboração do artigo não informa o título exato, os autores, o DOI ou o link direto. Esses dados devem ser verificados antes da publicação definitiva.
Nota metodológica: as referências acima incluem estudos científicos, documentos institucionais e fontes empresariais. Nem todas possuem o mesmo nível de evidência, e alguns registros estão descritos de forma provisória porque os metadados bibliográficos completos precisam ser conferidos. Os valores financeiros e as conclusões científicas devem ser associados às fontes primárias correspondentes.